O que os Convites, o Vir a Ser e a nossa Missão no mundo tem a ver entre si?

November 16, 2016

por Patricia Busatto

 

“... Quando eu conseguir deixar entrar a luz, ele aprenderá sozinho tudo o que precisa saber.” 

Extraído de um conto iídiche

 

 

Eu cresci ouvindo minha mãe dizer (entre outras coisas, obviamente) que convite não se recusa, se aceita. Cresci com essa crença, com esse princípio, e ainda hoje acho que, no meu caso, é uma crença impulsionadora.

 

Mas, pequena, era fácil discernir o que era um convite: para uma festa de aniversário, para brincar na casa da amiguinha, para estudar com outra. Agora, adulta, tem tanta coisa ao redor do convite, que é difícil distinguir os chamados verdadeiros, e discernir o que está sendo pedido de nós neste chamamento.

 

Recentemente eu fiz um exercício, em um grupo de estudos que olha para a nossa prática, onde a proposta era relatar duas situações em que achamos que fizemos o nosso melhor, onde nos orgulhamos de nossa atuação. Coincidente – e inconscientemente – eu trouxe  duas situações onde fui convidada para algo e não sabia bem para que. Olhar para o recorte dessas situações, escolhidas ao acaso, foi muito iluminador. Curiosamente, em ambas não estava claro o papel esperado de mim. Havia um espaço de liberdade sobre a forma, em que eu poderia fazer aquilo que havia sido pedido de mim (em uma das situações) ou que nenhum pedido explícito havia sido feito (acho que nem quem me convidou sabia porque exatamente havia me convidado).

 

E como convite não se recusa, se aceita, lá fui eu.

 

Foi muito interessante viver essas duas situações. Confesso que no início das duas me senti muito insegura. Para que eu estava ali? Estava à altura (sabe-se lá do que) para estar ali? O que deveria fazer? Como participar?

 

O motivo da seleção destas situações específicas para o relato no grupo foi que, depois de passadas as situações, fiquei muito satisfeita com a minha participação – e mais que isso, ambos os grupos com os quais estava envolvida sentiu-se muito bem com a minha participação.

 

O que aconteceu ali? O que me fez sentir-me bem, o que fez com que o grupo se sentisse bem?

 

Numa das empresas em que eu trabalhei, fui gerente de projetos. Essa empresa tinha uma metodologia muito bem estruturada de desenvolvimento de projetos. Uma das etapas às quais era dada grande ênfase na metodologia (mas que infelizmente poucas vezes era seguida), era o que chamavam de PIR. Post implementation review (era uma empresa – maravilhosa por sinal – anglo-holandesa, então anglicismos eram parte da cultura). O PIR era justamente a revisão após a implementação do projeto, a observação sobre o que aconteceu, sobre o desenrolar de um projeto desde a concepção até a prática – a avaliação do caminho da ideia, no mundo do espírito, à sua concretização, ao mundo da matéria.

 

E o que eu fiz com essas duas situações relatadas foi um PIR. Uma revisão retrospectiva e, especialmente, uma reflexão sobre o que aconteceu. Ainda contei com uma escuta amorosa e um feedback generoso. Aí entram os temas que quero abordar.

 

Inicialmente, o tema da missão. Diz-se que, na astrologia – e acho que na antroposofia, não recordo bem onde ouvi isso, só se pode ter a certeza da missão de uma pessoa através da leitura do seu mapa astral do momento da morte. Ou seja, precisaríamos viver toda a vida para de fato sabermos a nossa missão.

 

Agora, se formos tomar uma máxima, que diz que a parte revela o todo, e aplicarmos para esta situação, podemos concluir que não precisamos esperar nossa morte para encontrar  ou ter vislumbres nossa missão. Na verdade, se focarmos em situações tais como aquelas que relatei em 15 minutos de fala, elas em si também tiveram seu nascimento e morte, e são uma parte que revela o todo – que revela o meu agir no mundo. Revelam portanto, elementos da minha missão, desde que eu olhe genuinamente para elas a posteriori. Desde que eu faça o PIR.

 

Apenas com essa leitura a posteriori eu pude chegar a resposta da pergunta: a serviço do que eu estava ali? A gente pode ir para uma determinada situação com uma pré-disposição de uma missão, ou de um servir a um determinado senhor, mas – por experiência própria, já que ando fazendo alguns PIR’s na minha vida – não necessariamente miramos em uma coisa e acertamos essa mesma coisa.

 

Agora, por que essas situações foram tão boas, a ponto de eu as selecionar para retratar a pergunta que me tinha sido feita? Porque em ambas as situações eu entrei sem saber o que fazer, insegura, mas por isso mesmo muito alerta e sintonizada comigo mesmo. O que eu pedia, para mim ou para qualquer força maior, para o universo, era para que eu conseguisse ser eu mesma, trazer aquilo que só eu poderia trazer e que, por ser eu, havia sido chamada a integrar aquele grupo.

 

Então ficou muito claro para mim a expressão de que caminho se faz ao caminhar. Não estou pregando aqui uma apologia à não busca da definição da sua missão, à não fazer exercícios ou elucubrações mentais na busca da definição seu propósito. Mas o que eu pude vivenciar na minha própria vida é que, embora tentar definir sua missão “na largada” seja importante, esse exercício vem de um lugar do pensar. Ela pode ser um bom referencial, mas há que ser recheada com vida, com viver, com vivenciar. O que estou defendendo aqui é o agir e o sentir, se percebendo nas situações e vivendo, e então colocar o pensar reflexivo em prática, se apropriando daquilo que foi vivido e do sentido que ele traz.

 

O vir a ser é. E assim que ele é, já não é mais, passa a ser o foi, e o próximo vir a ser está vindo, e é, e foi. E assim é o fluxo do mundo, o fluxo da vida. Ao mesmo tempo em que a semente traz em si toda a sua informação, sua missão – ela é talvez a melhor metáfora que temos para entender que uma parte contém o todo – ela vai se revelando aos poucos. Pode ser que aquela semente não encontre um solo fértil. Pode ser que “dê”, e que ainda que saiba que em si é uma macieira, não encontre ambiente fértil, a água por exemplo não é suficiente, ou é excessiva. Mas ainda que a semente se torne a macieira, que a macieira dê outras maçãs, e cada maçã carregue dentro de si outras sementes – de macieira obviamente, -- quando você a colhe ela tem ainda um longo caminho para ela percorrer. Se tornará uma torta? Ou um chutney? E acho que só com ela na mão, com nossa intenção e com o nosso agir, associado ao que a situação pede, é que podemos sentir o que ela se tornará e ver depois se o que ela se tornou era o mais adequado naquele momento.

 

Pode ser que para você tudo isso seja muito óbvio, e desejo que seja assim. Para mim só ficou claro ontem à noite.

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